Autoesporte – Kadett carro do ano


    Março é mês de decisão. Os eleitos tomam posse em vários níveis de governo, e Autoesporte anuncia a escolha do "Carro do Ano". Essa promoção tradicional, realizada cem exclusividade no Brasil há 26 anos peja Efecê Editora, teve a maior repercussão junto aos eleitores - a imprensa especializada de todo o País - desde sua criação. Foram 82 votantes (sete anulados), e o vencedor, o Kadett da General Motors acabou derrotando o Apollo seguido pelo Uno.

    No superteste do "Carro do Arro", introduziram-se duas novas avaliações inéditas no País: skid pad, onde se pode medir com precisão a aceleração lateral do veículo, eliminando o julgamento subjetivo do piloto sobre estabilidade em curvas; e a checagem dos dados fornecidos pela fábrica sobre consumo de combustível, segundo os ciclos padronizados da Associação Brasileira de Normas Técnicas, exatamente como se faz nos países desenvolvidos. São números teóricos, mas sob absoluto controle das variáveis, que podem ser comparados com os dados de campo obtidas nos ciclos-padrão de AE cidade/estrada.

Entrevista

    A General Motors do Brasil, a empresa fabricante do Kadett, o "Carro do Ano", enfrenta uma forte competição de mercado. Na faixa inferior, a Fiat, com o Uno Mille, ameaça tomar consumidores do Chevette.

    E, na faixa superior o Monza e o Opala terão de enfrentar, nos próximos meses, lançamentos de peso programados pela Volkswagen, Ford e pela própria Fiat.

    Nada disso, contudo, preocupa Robert Stone, o executivo que acumula a presidência da General Motors do Brasil com a vice-presidência da corporação para a América Latina. "Temos vários lançamentos programados, que, alidados ao novo Monza que já colocamos no mercado, deverão garantir a manutenção de nossa capacidade de competição", diz ele.

    Nesta entrevista exclusiva a Autoesporte Some fala desses lançamentos e anuncia uma surpreendente alteração na filosofia de trabalho do grupo norte-americano no Brasil: os novos carros podem nascer a partir da associação da General Motors do Brasil com empresas automobilísticas européias ou mesmo japonesas. "Temos vários estudos em andamento" revela.

Autoesporte - A Volkswagen , Ford e a Fiat estão, todas, com lançamentos programados para os próximos meses, o que deverá tornar ainda mais acirrada a disputa pelos comsumidores. Como a General Motors pretende enfrentar esse aumento da concorrência? Robert Stone - O Kadett, que é um lançamento relativamente recente, aliado ao Monza, que acabamos de reestilizar, devem garantir nossa capacidade de competição nas faixas nas quais estão situados. Nós também temos, porém, vários lançamentos programados para os próximos anos.

AE – Que lançamentos são esses?
Stone – São lançamentos que vão reforçar nossa presença nos dois extremos do mercado, na ponta dos carros mais baratos e também no segmento de carros de luxo.

AE – Estamos falando, portanto, dos substitutos do Chevette e do Opala?
Stone – Os novos carros destinam-se, de fato, aos segmentos que hoje disputamos com esses dois modelos.

AE – Para quando estão programados esses lançamentos? São planos a curto prazo?
Stone – São lançamentos que pretendemos fazer ao longo dos próximos cinco anos.

AE – Os novos modelos já estão definidos?
Stone – Ainda é cedo para entrar nesse tipo de detalhe. O que já posso dizer é que pretendemos recuperar a posição de fabricante do carro mais barato em oferta no mercado.

AE – Essa posição pertence hoje à Fiat, que só a conseguiu com o lançamento do Uno Mille, um carro que alcançou essa posição por ser equipado com um motor com menos de 1.000 cm3, o que lhe garante uma taxa menor de imposto. Essa afirmação representa, na prática, que a General Motors está programando sua entrada nessa mesma faixa? Está a General Motors preparando o lançamento de um carro equipado com um motor com menos de 1.000 cm3?
Stone – Não temos, é claro, a menor intenção de deixar a Fiat sozinha nessa faixa. Isso não seria bom para o consumidor.

AE – A General Motors está, então, programando pelo menos dois lançamentos para os próximos cinco anos, um na faixa do Chevette e outro no segmento do Opala?
Stone – Temos planos também para o segmento de veículos comerciais.

AE – São muitas, então, as mudanças previstas?
Stone – Exatamente. Não se pode esquecer que, com a maior abertura que está sendo dada à importação de veículos, o mercado ficará mais competitivo e, sobretudo, os consumidores tenderão a ficar mais exigentes.

AE -Essa é uma afirmação que, de certa forma, dá razão ao presidente Fernando Collor, quando ele afirma que os carros fabricados no Brasil são umas “carroças”, quando comparados aos automóveis fabricados na Europa, nos Estados Unidos e no Japão...
Stone -Alguns dos modelos fabricados no Brasil estão, de fato, defasados tecnologicamente em relação aos que estão sendo produzidos nos países mais desenvolvidos.

AE -Recuperar essa defasagem tecnológica não custa pouco. Quanto a General Motors do Brasil está disposta a investir para fazer todos os lançamentos que está programando?
Stone - Estamos programando investimentos da ordem de um bilhão de dólares nos próximos cinco anos, com uma média de US$ 200 milhões por ano..

AE -De onde virão esses recursos?
Stone - Virão de nossa operação no Brasil.

AE -Nada virá da matriz?
Stone - O Brasil é um País que tem um enorme potencial de mercado. No entanto, a falta de estabilidade econômica torna muito difícil conseguir a aprovação, pela matriz, de qualquer investimento que implique a aplicação de dinheiro novo.

AE - Há pouco tempo, a General Motors do Brasil acabou deixando escapar a possibilidade de fabricar uma minivan que seria produzida no Brasil e exportada para os Estados Unidos e Europa. Seria, aliás, o primeiro veículo, fabricado no Brasil a ser exportado, ao mesmo tempo, para os dois continentes. A questão da falta de estabilidade econômica foi a razão dessa desistência?
Stone -No caso específico da minivan - um projeto, aliás, que foi inteiramente desenvolvido no Brasil - a questão é um pouco mais complexa, na medida em que as dúvidas envolvem o próprio veículo em si: ainda hoje não existe a convicção de que é o produto certo para entrar nessa faixa do mercado. A questão da falta de estabilidade econômica, no entanto, por certo contribuiu, e muito, para o Brasil perder a oportunidade de centralizar a produção da minivan.

AE - Isso significa que, caso a General Motors acabe chegando à conclusão de lançar a minivan, ainda assim o Brasil não deverá ser o responsável por sua produção?
Stone - A minivan, se vier a ser lançada, provavelmente será fabricada na Alemanha.

AE - É mais barato, então, hoje, fabricar um carro na Alemanha, em relação ao Brasil?
Stone - Os custos no Brasil são mais baixos. Falta, porém, estabilidade econômica. E também estabilidade do câmbio - uma questão fundamental, quando se trata de exportação.

AE -Tudo isso significa que os lançamentos programados para os próximos cinco anos não têm qualquer chance de ser exportados para outros países?
Stone - Eles estão sendo projetados para ser comercializados no Brasil e nos demais países da América Latina, nos quais a General Motors mantém bases de operação.

AE - Voltando à questão dos investimentos já programados para o Brasil, a General Motors terá, então, de gerar US$ 200 milhões, em média, ao ano, nos próximos cinco anos, para poder levar seus planos adiante? Isso é possível?
Stone -Nossas projeções indicam que sim. Trata-se, porém, de uma conta muito justa. Daí estarmos estudando algumas outras alternativas.

AE - Que tipo de alternativas?
Stone -Licença de fabricação, ou mesmo associações com outras empresas.

AE - Surgiram rumores, há alguns meses, de que a General Motors do Brasil estaria negociando com a Renault a fabricação, no Brasil, do Renault 5, um carro possível de ser vendido por um preço inferior ao do Uno Mille. Havia, então, um fundo de verdade nesses rumores?
Stone - Andamos conversando. Estamos abertos a negociações.

AE - Seria lícito imaginar a General Motors do Brasil fabricando dentro de cinco anos produtos desenvolvidos por montadoras francesas ou japonesas. Ou mesmo com participação de capital de montadoras européias ou japonesas. Quem sabe, até das duas origens ao mesmo tempo?
Stone - Tal como já disse, estamos abertos a todas as possibilidades; é possível, sim.

AE - Existem negociações em andamento?
Stone - Existem.

AE - Com quem?
Stone - Seria ainda prematuro revelar.

AE - E quando deverão estar concluídos? Estamos falando de negócios que deverão estar concluídos a curto prazo?
Stone - Deverão estar concluídos em tempo de nos permitir manter os prazos que estamos prevendo para os lançamentos que, conforme já foi dto, deverão acontecer ao longo dos próximos cinco anos.

AE - São projetos ambiciosos que, por certo, funcionam como um bom coroamento para a vida de uma empresa que acaba de ter um dos seus automóveis selecionados como o "Carro do Ano”...
Stone - Foi, por sinal, uma escolha que nos encheu de felicidade.

AE - É curioso, aliás, que o Kadett tenha sido escolhido como o “Carro do Ano” não quando foi lançado, mas, sim, no ano seguinte...
Stone - Encaramos esse fato com muita maturidade. Na verdade, isso não chega a ser uma novidade. É, de certa forma, o preço que, o Kadett tem de pagar por ser um automóvel com linhas externas e soluções técnicas revolucionárias. Foi assim em todos os países nos quais o Kadett foi lançado. Sempre demorou um certo tempo até ser aceito. Em compensação, tal como aconteceu no Brasil, o resultado final sempre foi ótimo.

Entrevista a S. STEFAN, Diretor da Gazeta Mercantil

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